Ouro Preto: o que se sabe sobre casa com desenhos feitos por escravos

Descoberta Inesperada na Reforma da Casa

A residência localizada na rua Conde de Bobadela, anteriormente conhecida como rua Direita, número 134, em Ouro Preto, Minas Gerais, escondia um valioso tesouro arqueológico que foi revelado durante uma reforma. Os desenhos, que se conectam à cultura africana e ao período da escravidão, estiveram ocultos por quase três séculos. O histórico imóvel passou por diversas mãos ao longo do tempo e, nos anos 80, foi adquirido pelos atuais proprietários com a intenção de transformá-lo em um restaurante.

No entanto, em 2017, a reforma do espaço mudou o curso planejado para a propriedade. Ao descobrir os grafismos que retratam cenas do cotidiano, resistência e ancestralidade africana, o local foi oficialmente protegido. Um parecer assinado em 23 de março de 2026 recomendou a homologação do cadastro do imóvel como sítio arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Significado dos Desenhos Feitos por Escravos

Os desenhos encontrados são uma poderosa representação da experiência de africanos e seus descendentes que viveram no imóvel enquanto eram escravizados. Eles expressam não apenas as interações sociais e modos de vida, mas também a criatividade e resiliência diante da opressão. O arqueólogo Leonardo Klink identificou e analisou cerca de 26 desenhos distintos, que variam entre riscos feitos na parede, grafites em tons de preto e vermelho e combinações de técnicas artísticas.

casa com desenhos feitos por escravos

Alguns dos desenhos incluem representações de animais, como um felino que pode ser interpretado como um leopardo ou onça, elementos geométricos e até figuras humanas. Uma das imagens mais intrigantes apresenta uma combinação de características humanas e animais, ilustradas com chifres e dentes pontiagudos, o que sugere um simbolismo cultural profundo.

Impacto Cultural dos Grafismos Descobertos

A descoberta dos grafismos não é apenas uma revelação artística, mas também uma contribuição essencial para a historia e cultura afro-brasileira. O Iphan destacou a importância de preservar esses patrimônio que salvaguardam narrativas da história brasileira, reconhecendo o papel significativo que a população negra teve na formação cultural de Minas Gerais.

Esses sítios arqueológicos não apenas educam a sociedade, mas também atuam na construção de uma identidade mais forte, fomentando a reparação histórica e preservando vestígios de lutas e práticas culturais que perduraram por séculos.

Como os Antigos Proprietários Preservaram a História

O administrador Philipe Passos, de 63 anos, relata que a propriedade foi comprada por seu pai como um presente para sua mãe. Desde a década de 1960, seu pai tinha uma visão do potencial turístico de Ouro Preto, levando à aquisição de imóveis no centro histórico. A condição do imóvel antes da reforma era precária, e o difícil acesso ao porão, aliado à falta de eletricidade até os anos 80, contribuiu para a preservação dos desenhos.

Por muito tempo, as moradoras do local entenderam os desenhos como marcas familiares e não se atentaram para o seu verdadeiro significado, o que revela como condições adversas podem preservar a história.



Estudos sobre a Casa na UFMG

Após a descoberta, o historiador Klink começou a estudar o local como parte de seu projeto de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele ficou cativado pela história da casa e pelo potencial cultural que ela representa.

Seu trabalho envolveu entrevistas com antigas moradoras que, acreditando que os desenhos eram apenas marcas pessoais, tinham ignorado sua relevância histórica. Klink busca fazer justiça à memória daqueles que viveram à sombra da escravidão, ajudando a trazer à tona as narrativas esquecidas.

Sítio Arqueológico e sua Importância

O Iphan reconheceu oficialmente o imóvel como sítio arqueológico, registrando-o no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) sob a denominação “Inscrições Afrodiaspóricas”. Essa categorização é fundamental para a proteção e valorização dos patrimônios culturais assemelham-se a um legado que deve ser ensinado e preservado.

A preservação desses locais não se limita à conservação física, mas visa garantir que as histórias de resistência, sofrimento e luta sejam contadas e reconhecidas na formação da identidade brasileira.

O Legado da Escravidão em Ouro Preto

O quadro da escravidão no Brasil, que perdurou de 1530 até 1888, deixou marcas profundas na sociedade. O legado desses povos inclui não apenas as tradições culturais que sobrevivem, mas também as memórias e as histórias de resistência que muitas vezes são esquecidas. Os desenhos na casa de Ouro Preto se tornam, portanto, um símbolo do forte impacto que essas culturas africanas tiveram no Brasil durante e após esse período doloroso.

Futuro da Casa e Possível Atração Turística

Atualmente, a residência permanece fechada para adaptações, mas Philipe Passos acredita que o local deve ser transformado em um espaço de visitação. Ele ressalta que isso não é apenas uma questão de interesse, mas uma obrigação histórica. O futuro do imóvel deve refletir a memória daquelas pessoas que habitaram naquele espaço, suas lutas e suas histórias.

A visitação deverá ser planejada com a supervisão do Iphan, que realizará estudos para determinar como conservar as inscrições e organizar a futura experiência dos visitantes, tornando o imóvel um centro cultural significativo.

Iniciativas de Preservação do Patrimônio Africano

Com a criação do Comitê Permanente para Preservação do Patrimônio Cultural de Matriz Africana (COPMAF), há um reconhecimento crescente da importância de patrimônios de raízes africanas dentro das instituições de preservação culturais. Esta iniciativa visa não apenas a preservação dos espaços, mas também a valorização e respeito pelas culturas afro-brasileiras.

O COPMAF reflete um avanço nas práticas de preservação que buscam incluir e amplificar as vozes da história afro-brasileira, um passo fundamental para a justiça social e reparação.

Reflexões sobre a História e Identidade no Brasil

A história da casa em Ouro Preto é uma prova clara do legado contínuo da escravidão e suas implicações na sociedade atual. Os grafismos e desenhos encontrados devem ser vistos como um chamado à reflexão sobre a identidade brasileira, suas complexidades e múltiplas influências.

Essa reflexão é vital para avançar em direção a um futuro que reconheça e valorize a contribuição significativa dos descendentes de africanos na formação do Brasil atual.



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