Entrevista Primaz

A trajetória de Helbert Almeida no forró

Helbert Almeida, também carinhosamente conhecido como Betinho, é um engenheiro de produção e mestre em economia, formado pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Desde sua chegada a Ouro Preto em 2016, Helbert se aprofundou no mundo do forró, uma manifestação cultural que teve grande influência em sua formação e identidade, especialmente por suas raízes familiares nordestinas em estados como Piauí, Ceará e Bahia.

Durante seus anos na UFOP, não só seguiu seu caminho acadêmico, mas também se destacou como um ativo agente cultural ao se juntar ao Grupo de Forró Ouro Preto (Gefop). Sua paixão pelo forró o levou a unificar sua carreira acadêmica com seu amor pela cultura, possibilitando uma análise mais profunda sobre a situação dos artistas e dançarinos dessa tradição.

Desafios enfrentados pelos artistas de forró

A rotina da comunidade forrozeira é permeada por dificuldades financeiras e invisibilidade. A pesquisa que Helbert desenvolveu para sua dissertação, sob orientação da professora Francisca Diana, teve como pergunta central: “Como se vive de forró?”. A resposta apontou para uma realidade preocupante, em que muitos artistas lutam diariamente para sustentar-se, enfrentando a precariedade e a falta de apoio nas políticas culturais públicas.

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O forró, embora querido, não recebe a valorização adequada por parte do poder público. Helbert critica o modelo de “turismo predatório”, que prioriza grandes eventos comerciais, frequentemente voltados a estéticas europeias ou centralizadas em São Paulo. Isso marginaliza instituições culturais nordestinas, relegando-as a uma categoria secundária enquanto promove uma forma de entretenimento que não reverbera no desenvolvimento local.

Políticas públicas de incentivo à cultura

Helbert fala sobre as carências nas políticas de incentivo à cultura no Brasil, especialmente para as manifestações do interior mineiro. Ele defende que a ações devem não apenas buscar a geração de receita, mas também criar um ambiente sustentável que permita aos artistas desenvolverem sua arte de maneira digna.

Além disso, ele destaca a importância de unir forças políticas e sociais para exigir mais representatividade e suporte nas ações promovidas pelo governo, tanto nas esferas municipais quanto estaduais.

O papel do turismo na cultura regional

Ao discutir o papel do turismo, Helbert critica a tendência de transformar festivais e eventos culturais em meras vitrines consumistas. Embora o turismo seja essencial para a economia local, a perspectiva de que ele deve gerar uma cultura de consumo imediato prejudica o verdadeiro valor das tradições culturais.

Ele lança luz sobre a necessidade de um turismo que promova, em vez de explorar, a riqueza cultural da região, valorizando as vivências e tradições nordestinas que mantêm o forró vivo.

A precaridade no mercado de trabalho artístico

A pesquisa realizada por Helbert demonstrou que muitos artistas do forró estão em situações de precariedade, uma realidade que se intensifica em regiões menos favorecidas. O levantamento aponta que as condições de trabalho são alarmantes, com poucos recursos e apoio institucional. A falta de eventos voltados para a formação e valorização de artistas impede o desenvolvimento de uma renda estável e a continuidade das tradições culturais.



Ele nota que, apesar de a região dos Inconfidentes estar repleta de atividades turísticas, o suporte necessário à classe artística local ainda é insuficiente, levando muitos artistas a saírem de seus lares em busca de oportunidades nas capitais.

Iniciativas de fomento cultural no interior

Helbert também participou ativamente na elaboração do Plano de Salvaguarda das Matrizes Tradicionais do Forró, que visa proteger e promover esta manifestação cultural. Esse plano é uma tentativa de criar metas de desenvolvimento cultural e não uma imposição ao governo local. A mobilização da comunidade é essencial para que esse e outros projetos sejam efetivamente implementados.

Entre as iniciativas promovidas por Helbert e seu grupo, destaca-se o festival Cultura Forrozeira, com foco na formação, e as comemorações do Dia Nacional do Forró, celebrado em 13 de dezembro. São esforços que visam valorização da cultura local e a criação de um ambiente mais propício para os artistas da região.

A importância da mobilização comunitária

Helbert enfatiza que a mobilização comunitária é crucial para garantir que as reivindicações por direitos e incremento de políticas culturais sejam ouvidas. Ele alerta que a união da classe trabalhadora cultural é essencial para as mudanças necessárias que precisam ser feitas, a fim de conquistar um espaço respeitado e digno dentro do panorama cultural brasileiro.

As ações coletivas, segundo ele, não só fomentam a cultura local, mas também atuam como um baluarte para proteger os direitos dos artistas e fomentar um ambiente sustentável.

O impacto da Lei Rouanet na cultura local

Em suas investigações, Helbert também analisa a Lei Rouanet, apontando como ela gera uma concentração de recursos que favorecem regiões mais desenvolvidas, como São Paulo, em detrimento do Norte e Nordeste. Essa disparidade cria uma dependência dos artistas locais em relação aos grandes patrocinadores e empresas, tirando o foco das véritas necessidades culturais dessas comunidades.

Por outro lado, ele faz uma comparação das Leis de repasse direto, como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc, com processos de investimento direto na cultura, que podem transformar o cenário para os artistas de base ao facilitar o acesso e a obtenção de recursos.

Estratégias para a valorização do forró

Para Helbert, é vital traçar estratégias que valorizem não apenas o forró, mas todas as tradições culturais que compõem o cenário brasileiro. A promoção de espaços onde eles possam atuar e expressar-se com dignidade é fundamental. Isso inclui criar oportunidades para que os próprios artistas desenvolvam suas carreiras sem a necessidade de migrar para outros centros urbanos em busca de melhores oportunidades.

Um dos caminhos propostos é o fomento de festivais formativos e concursos culturais que deem visibilidade à cultura local e fortaleçam a rede de artistas e iniciativas culturais nos interiores. Além disso, integrar a cultura local em eventos maiores pode proporcionar uma maior visibilidade e respeito ao forró como uma contribuição valiosa para o patrimônio cultural brasileiro.

O futuro da cultura forrozeira em Minas Gerais

Ao olhar para o futuro, Helbert permanece otimista em relação à cultura forrozeira. Com a visibilidade crescente e a valorização das matrizes culturais, há esperança de que o forró encontre seu espaço e reconhecimento dentro do contexto cultural mais amplo.

É fundamental que as iniciativas de fomento à cultura continuem a evoluir, possibilitando que novas gerações de artistas tenham oportunidades e que a tradição do forró seja mantida e celebrada. A mobilização e a união da comunidade artística em torno de seus desafios e conquistas serão essenciais para pavimentar esse caminho.



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